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Após os decepcionantes resultados oficiais da Rio+20

Está mais claro do que nunca: os governantes atuais não são capazes de construir soluções sustentáveis para o mundo. Este é um desafio que cabe à educação, em nível global. na charge de Claudius (publicada na Folha de S. Paulo), o cenário de uma hipotética "Rio+40"
"Interdependência ou morte" - o brado do consultor convidado José Pacheco, criador da Escola da Ponte, parafraseia o célebre mote atribuído a Dom Pedro I.

E irá, com certeza, ressoar por muito tempo nos corações e mentes dos 120 participantes do Seminário Currículo Global: Rio + 20 vai à Escola, realizado em São Paulo no dia 16 de junho.

Ao discutir formas de inserir no currículo temas da dimensão global – de direitos humanos à sustentabilidade social, econômica e ambiental, eles puderam experimentar o poder do trabalho em parceria, em que um apoia o outro e “conseguem todos juntos, unindo seus cantos, realizar o que isoladamente seria impossível”, como apontou o cartunista, arquiteto e ativista social Claudius Ceccon, diretor executivo do CECIP.

Quem participou

O público do Rio + 20 vai à Escola era formado majoritariamente por professores de escolas públicas, mas havia também educadores de escolas particulares, representantes de ONGs (CEDAC, A, Instituto Politeia, ANDI/Oficina de Ideias, Projeto Quixote), de Universidades (Faculdade Zumbi dos Palmares e PUC) e de instituições da sociedade (Instituto Cultural Israelita Brasileiro, Mirror Leadership, Linx). Jovens alunos das seis escolas participantes do projeto Currículo Global e alguns familiares se envolveram ativamente.

Tereza Farias, uma das autoras da Metodologia Telessala, da Fundação Roberto Marinho, veio do Rio para participar da entrega do Prêmio de Cidadania Global CECIP/Fundação Roberto Marinho a 6 professores e 5 alunos vencedores do Concurso de Redações sobre o site www.globalcurriculum.net. O evento foi acompanhado por jornalista do Observatório da Educação/ Ação Educativa.

“A capacidade de juntar em uma mesma frente de trabalho escolas brasileiras públicas e privadas, ONGs, pesquisadores da educação e alunos é o que marca o ineditismo do projeto Currículo Global no Brasil. Ele nos convida a pensar o currículo de forma interdisciplinar, rompendo compartimentalizações, partindo de questões locais para chegar ao global – e mostrando que a escola pode ser um lugar de luta por um mundo mais justo e sustentável”, afirmou Helena Singer, diretora do Instituto Politeia de Educação Democrática.

A abertura

O dia teve início com as falas de Ione Guelfi Binatti, diretora da Escola Estadual Julia M. Pantoja (que sediou o evento), de representantes das Secretarias Estadual e Municipal de Educação de São Paulo – Valéria Ferrante e Vera Helena dos Santos, respectivamente –, de Claudius Ceccon e da coordenadora do projeto Currículo Global, Madza Ednir. Os temas básicos do Seminário foram apresentados no documentário de 20 minutos “Currículo Global: Formando Cidadãos Planetários no Brasil”, apresentado por Débora Maria Macedo, professora da EMEF Guilherme de Almeida, responsável pelo roteiro e captação de imagens do vídeo.

As exposições sobre as Viagens de Estudo ao Reino Unido (Leeds) e ao Benin (Porto Novo) foram coordenadas pelas professoras Daniela Coelho Lastoria, do Colégio Bandeirantes e Vera Lucia Tavares de Mello, da EMEF Guilherme de Almeida, e geraram perguntas e comentários instigantes.

Múltiplas Perspectivas

Para exemplificar como podem ser construídos conceitos que expressam a Dimensão Global, como o de Justiça Social, evidenciando a diversidade de percepções a respeito, a profª Daniela reproduziu um exercício feito em Leeds, no qual imagens da realidade são mostradas e os participantes devem escolher quais consideram justas (levantando um cartão verde), quais consideram injustas (cartão vermelho) e aquelas que não conseguem enquadrar como justas ou injustas (cartão amarelo). As diferentes percepções se evidenciaram quando, por exemplo, cartões vermelhos foram levantados diante de imagem da popstar Madonna levando seu filho adotivo negro nos braços. Uns argumentaram que “crianças são o futuro de um país e seus pais devem ser apoiados para que possam criá-las”, outros viam naquela imagem um golpe de autopromoção, e um terceiro grupo percebeu na foto uma mãe e seu filho – não importa se biológico ou adotivo – e considerou “justa” esta relação.

Inovação

A diversidade de percepções enriqueceu os debates na parte da manhã. As consultoras Cenise Monte Vicente – presidente da ANDI (Agência Nacional de Noticias sobre a Infância) e coordenadora da Oficina de Ideias – e Cristiana Mattos de Assumpção – coordenadora de Biologia do Colégio Bandeirantes – fizeram considerações sobre o vídeo e os depoimentos que acabavam de presenciar. Segundo Cenise, “o Projeto é bom porque promove o intercâmbio e possibilita pensar o mundo, além de apresentar o desafio de rever o ECA para efetivamente tratar as crianças como sujeitos de direitos”. Para Cristiana, “esse Projeto tem o mérito de nos ligar a outros países, possibilitando o acesso a novas perspectivas. Convida a usar a cidade, que é um espaço educativo, e dá espaço a visões diferentes sobre o fazer educativo, que não são mutuamente excludentes”.

“Não continuem a fazer o que fazem”

Segundo o professor português José Pacheco, que se disse influenciado, na década de 70, pelo livro “Cuidado, Escola”, de Claudius Ceccon e Paulo Freire, “o que acontece nas escolas de Leeds é fantástico, mas já era assim há 40 anos e cidades sustentáveis como Leeds não são novidade em Portugal, onde existem tantas outras”. O educador desafia conceitos tradicionais como aula, divisão por idade e horários rígidos, bem como a cultura do isolamento que ainda prevalece na educação formal, por meio de experiências como a Escola da Ponte e, aqui no Brasil, a Escola do Projeto Âncora.

“O que está sendo apresentado como inovação já se faz no Brasil há mais de cem anos”, afirmou Pacheco, depois de avisar que seria “fraternalmente desagradável”. O novo, disse o educador, está no Projeto Songhai do Benin, apresentado pela equipe que viajou àquele país – uma experiência de sustentabilidade que envolve educação voltada à criação de novas formas de produção e de consumo alternativas às dominantes – e que ele gostaria de conhecer um dia. O novo, disse, consiste em considerar como se faz novas escolas beninenses, onde os alunos ficam dispostos sempre em grupos e não isolados em carteiras individuais, já que “trabalhar em grupo é uma decisão política”.

Pacheco considera que o modelo atual de escola é incompatível com os princípios de um projeto como o Currículo Global, pois nas aulas não é respeitado o ritmo de cada um, não se considera que cada pessoa tem seu jeito de aprender, o seu caminho. “Por que as aulas têm 50 minutos? Ninguém sabe responder”, provocou. Além disso, são apresentadas “verdades definitivas” e certezas que não combinam com a aprendizagem da pesquisa, um dos melhores métodos de se conhecer a realidade; “tenham cuidado com isso”, alertou o educador português, “não continuem a fazer o que fazem”.

Ao final, todos concordaram com José Pacheco, quando lembrou que projetos como o Currículo Global chegam e desaparecem sem deixar rastro, a menos que o seu tempo de vigência seja utilizado pelas escolas participantes para se repensar, mudando o seu Projeto Político Pedagógico.

Indício de que as equipes Currículo Global (CG) das seis escolas estão fazendo sua parte para que tal possibilidade se concretize é a liderança nelas exercida por gestores como Cristiana Mattos Assumpção, do Colégio Bandeirantes, Ângela Belinatti, Eduardo Villalpando e Denise Pires, da EMEF Guilherme de Almeida, Ione Guelfi Binati, Rosmeire Giacomelli e Vanessa Bastos, da EE Julia Pantoja, Arnaldo e Lucia Hirata, da EE Luiza Hidaka, Carol Sumie, da Politeia, e Georgya Correa, da Teia Multicultural. As apreciações sobre as Aulas- Vivência desenvolvidas pelas escolas mostram que estão se realizando as intenções de se colocar em prática nas escolas os princípios de uma Educação Global:

“Adorei ter estado com professores e alunos na Aula-Vivência sobre Migração – que propiciou contatos e articulações interessantes. Quero continuar acompanhando esse processo” – Marina Sendacz, presidente do Centro Cultural Israelita Brasileiro (ICIB), sobre a aula de Geografia + L. Portuguesa: “Migrante como cidadão”, da Equipe CG do Colégio Bandeirantes.

“Aprendi sobre o Mito da Serpente em diferentes culturas, e aprendi por que os professores eram pessoas apaixonadas, com aproximadamente 14 anos de idade. Esse trabalho, construído fora do horário regular, mostra que é possível aproveitar brechas e que a escola pode se transformar em um grupo de estudo onde todos aprendem e ensinam” – Helena Singer, presidente do Instituto Politeia de Educação Democrática, sobre a aula de L. Portuguesa + Artes: “Mitos Daqui e Dali”, da Equipe CG do EMEF Guilherme de Almeida e alunos envolvidos no Projeto.

“Ao levar os participantes a discutir qual o melhor meio de transporte a ser utilizado no percurso Vila Prudente - Centro, trabalharam-se os conceitos de Interdependência, Sustentabilidade e Cidadania Global, utilizando-se os conteúdos de Matemática, Geografia, Português e Artes. Os jovens da escola estão elaborando um manifesto sobre a importância de se investir no transporte coletivo, que irão entregar aos candidatos à Prefeitura de São Paulo, antes das eleições de Outubro” – Carla Lam, do Projeto Quixote e do NESME, sobre a aula de Matemática + Artes + Geografia + L. Portuguesa: “Mobilidade Urbana”, da Equipe CG da EE Julia Pantoja.

“Recebi muitas informações, da China ao Código Florestal, passando pela criação do bicho da seda e pelo plantio de amoreiras. A Crítica ao Código Florestal não pode levar a uma sensação de impotência. Cada um tem o poder de agir para transformar. Por exemplo, plantando árvores como os alunos dessa escola” – Claudia Ceccon, coordenadora de projetos do CECIP, sobre a aula de História + Ciências + Matemática: “De Marco Polo à Devastação de Florestas no Brasil”, da Equipe CG da EE Luiza Hidaka.

“As questões pedagógicas colocadas ultrapassam o campo teórico e se traduzem na prática de uma pedagogia do cuidado e da inclusão. Estão sendo criadas redes de comunicação, afeto e muita felicidade” – Tereza Farias, da Diretoria de Educação da Fundação Roberto Marinho, sobre a aula de Ciências + Artes: “Ciência entre a guerra e a paz”, da Equipe CG da Escola Politeia.

“Há um alinhamento entre o que fazem e os princípios do Projeto. Vi que o centro está na pessoa. O foco não é apenas no aspecto cognitivo, mas no emocional, nas interações” – José Pacheco, sobre a aula L. Portuguesa + Ed. Física + Artes: “A Casa do João de Barro e o Direito à Moradia”, da Escola Teia Multicultural.

Aug. 14, 2012, 4:27 a.m.

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